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Ilusão 2: “eu sabia disso”

Atualizado: 14 de jul. de 2025

Como o desfecho influencia nosso julgamento sobre decisões passadas


Um dos grandes limites da mente humana está na dificuldade de reconstruir, com precisão, o que sabíamos ou acreditávamos antes de mudar de ideia por uma informação ou acontecimento novo. Assim que adotamos uma nova interpretação do mundo, nossa memória do que pensávamos anteriormente começa a se apagar ou a ser alterada. Esse fenômeno é chamado por Daniel Kahneman de substituição: em vez de lembrar o que de fato sentíamos ou acreditávamos no passado, simplesmente o substituímos por nossa versão atual da realidade que nos impactou.

O resultado disso é que tendemos a subestimar o quanto certos acontecimentos nos influenciam de verdade. Quando somos pegos de surpresa por fato novo, tudo parece óbvio — mesmo que, na hora, estivéssemos completamente despreparados para o que estava por vir.


Viés retrospectivo: quando o desfecho muda a avaliação da decisão


Esse tipo de distorção cognitiva foi estudado por Baruch Fischhoff, que identificou o chamado viés retrospectivo. Ele ocorre quando avaliamos uma decisão com base no resultado final, e não no processo que levou até ela. Em outras palavras, julgamos se uma decisão foi boa ou ruim de acordo com seu desfecho — ignorando se ela fazia sentido à luz das informações disponíveis no momento em que foi tomada.

Imagine, por exemplo, uma cirurgia considerada de baixo risco. Um acidente inesperado ocorre e o paciente morre. Após o ocorrido, é muito provável que o júri — ou os familiares — acredite que a cirurgia era, na verdade, arriscada, e que o médico jamais deveria tê-la indicado, pois isso obvio que iriam acontecer. Isso é o viés de resultado: nossa mente tende a reavaliar o passado com base nas consequências, como se elas sempre estivessem claras desde o início.


Julgamentos injustos e a crueldade com quem decide por outros


Esse tipo de distorção é especialmente injusto com quem toma decisões em nome de outras pessoas: médicos, gestores, consultores, políticos, empresários. Quando uma escolha gera um resultado negativo, mesmo que tenha sido feita com base em dados sólidos e boas intenções, esses profissionais são frequentemente culpados por “não terem previsto o óbvio”.

E o contrário também acontece: quando a decisão leva a um sucesso inesperado, tendemos a atribuir o mérito total à pessoa que a tomou — mesmo que ela tenha apenas tido sorte. Assim, profissionais sensatos que agiram com cautela e realismo acabam sendo vistos, em retrospectiva, como inseguros ou limitados, enquanto quem fez apostas ousadas e deu sorte passa a ser celebrado como visionário e genial.


A memória moldada pelo desfecho


O grande problema é que os sinais de alerta que hoje parecem evidentes muitas vezes eram invisíveis antes do desfecho. Mas, após os resultados — sejam bons ou ruins — esses mesmos sinais são reinterpretados como se sempre estivessem ali, claros e acessíveis... então vem as famosas frases: “eu já sabia disso” ou “isso era obvio”.

Por isso, a percepção tardia e o viés de resultado não apenas distorcem nossa memória dos fatos, mas também influenciam profundamente a forma como julgamos o comportamento alheio. Muitas vezes, levamos a consequências desproporcionais: punimos quem tomou boas decisões que não deram certo e recompensamos com elogios imerecidos quem teve sucesso por pura sorte.

Esses vieses cognitivos também criam um ambiente que penaliza a cautela e estimula o risco. Afinal, quem erra com prudência pode ser culpado, mas quem arrisca tudo e acerta vira herói — mesmo que o erro estivesse a um passo.


No próximo artigo: vamos explorar por que atribuímos méritos exagerados a certos líderes, como se tivessem total controle sobre o sucesso de suas organizações.


📚 Referência:KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.


Autor: Renato Baldissera Economista e estudioso do comportamento humano nas relações de trabalho, consumo e gestão. Criador da Capital Interno.

 
 
 

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