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O segredo não é vencer. É continuar no jogo.


Nem todo fracasso é somente culpa, nem todo sucesso é somente mérito.


Imagine dois agricultores. Os dois compram as mesmas sementes, trabalham com dedicação, acordam cedo e seguem as melhores orientações disponíveis. Mas naquele ano uma tempestade destrói parte da lavoura de um deles. O outro recebe chuva na medida certa. Meses depois, um é visto como exemplo de sucesso. O outro é considerado um fracasso.

Mas será que a diferença entre eles foi apenas competência?

Gostamos de acreditar que o sucesso é resultado direto do mérito. Que pessoas bem-sucedidas chegaram onde chegaram porque foram mais inteligentes, mais disciplinadas ou mais talentosas. Da mesma forma, tendemos a acreditar que quem fracassou fez algo errado.

Essa visão é confortável porque nos dá a sensação de que controlamos totalmente o nosso destino. O problema é que o mundo não funciona assim.

Daniel Kahneman, em seu livro Rápido e Devagar, descreve como nossa mente cria histórias simples para explicar acontecimentos complexos. Quando observamos uma empresa de sucesso, por exemplo, costumamos atribuir os resultados à genialidade de seus líderes. Porém, muitas vezes ignoramos fatores externos, circunstâncias favoráveis e eventos que ninguém poderia prever.

Morgan Housel, em A Psicologia Financeira, reforça essa ideia ao mostrar que toda história de sucesso ou fracasso carrega duas forças invisíveis: sorte e risco. A sorte é aquilo que acontece a nosso favor sem que tenhamos controle. O risco é aquilo que acontece contra nós sem que possamos evitar completamente. Os dois fazem parte da vida.

Imagine um projeto com 80% de chance de dar certo e 20% de chance de dar errado. Mesmo que você faça tudo corretamente, ainda existe a possibilidade de estar justamente nos 20%. Isso não significa que competência não importa. Importa muito. Mas significa que competência não é a única variável envolvida.

A maioria das pessoas olha apenas para o resultado final e ignora as probabilidades que existiam antes dele acontecer. Por isso admiramos excessivamente alguns vencedores e julgamos severamente alguns derrotados. Esquecemos que a vida é influenciada tanto por decisões quanto por circunstâncias.

Talvez nenhum exemplo seja melhor do que Warren Buffett.

Muitos enxergam apenas sua fortuna atual e imaginam que ela foi construída por algum talento quase sobrenatural.

Sem dúvida, Buffett é um investidor extraordinário.

Mas existe um fator igualmente importante em sua trajetória: o tempo.

Grande parte de sua riqueza foi construída porque ele permaneceu investindo durante décadas. O segredo não foi apenas ganhar dinheiro, pois a media de retorno dele era em torno de 20% ao ano antes dos 50 anos de idade, Foi sobreviver tempo suficiente para permitir que a probabilidade dos números no longo prazo jogassem ao seu favor.

E aqui está uma das lições mais importantes da vida financeira. O segredo não é vencer. O segredo é continuar no jogo. Ganhos e perdas acontecem. Momentos bons e ruins acontecem. Empresas crescem e enfrentam crises. Carreiras avançam e retrocedem.

Quem constrói resultados duradouros não é necessariamente quem acerta mais. Muitas vezes é quem consegue sobreviver aos inevitáveis períodos de dificuldade, pois as probabilidades mudam. Os ciclos mudam. As oportunidades mudam.

E quem permanece de pé mantém a chance de aproveitar quando os ventos voltam a soprar a seu favor.

Talvez a pergunta mais importante não seja:

"Como posso ganhar mais?"

Mas sim:

"Como posso continuar no jogo?"

Porque nem todo sucesso é mérito.

E nem todo fracasso é culpa.

Mas permanecer no jogo aumenta as chances de que o próximo capítulo da história seja melhor que o anterior.

 

Renato Baldissera

Economista|Capital Interno

 
 
 

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